
Nesta edição, dois novos carimbos no nosso passaporte literário latino-americano.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, ausências na lista do The Guardian, os confrontos na Bolívia, o jogo da Copa que quase faliu uma editora e mais.
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O The Guardian publicou na semana passada uma lista com os 100 melhores romances de todos os tempos. Em primeiro lugar ficou Middlemarch, de George Eliot, livro que a Pinard publicou aqui no Brasil. Estamos comemorando? Estamos. Mas não exatamente pelo motivo mais óbvio.
A lista do jornal britânico foi construída com uma metodologia cuidadosa: mais de 170 especialistas, entre romancistas, críticos e professores de literatura, elencaram seus dez romances favoritos em ordem de preferência. Valia tudo, desde que tivesse sido publicado em língua inglesa.
Entre Woolf e Joyce, Tolstói e Toni Morrison, um romance vitoriano de 1871, denso, longo, centrado na vida de uma cidade do interior inglês, foi o mais votado. Não é exatamente uma surpresa para quem o leu: é mesmo um livro ambicioso e de uma precisão psicológica que poucos romances em qualquer língua e em qualquer época alcançaram.
Para a Pinard, Middlemarch tem uma história particular. O livro entrou para o catálogo nos primeiros anos da editora, quando ainda não éramos a casa da literatura latino-americana. Era um título amado pela equipe e também pela crítica, que premiou a tradução de Leonardo Fróes com o Prêmio Paulo Ronai da Biblioteca Nacional. Olhando para trás, a aposta editorial fazia todo sentido. Olhando para a Pinard que viria depois, talvez menos.
Isso porque a editora entendeu que seu trabalho estava menos em reafirmar os consensos do cânone europeu e mais em ampliar o espaço da literatura latino-americana entre os leitores brasileiros – e, quem sabe, ajudar essa literatura a circular mais longe também, tirando-a das margens e colocando-a no centro das conversas literárias. O que nos traz à pergunta que mais importa: quantos livros latino-americanos estão nessa lista?
Cem Anos de Solidão, de García Márquez, na 17ª posição, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo, em algum lugar no ranking. Em cem títulos escolhidos por mais de 170 especialistas de todo o mundo anglófono, apenas dois livros vêm do nosso cantinho no mundo. Vargas Llosa não entrou. Borges, Cortázar, Machado, Asturias, Mistral, Lispector, Fuentes e Donoso também não.
Isso é um retrato de como a literatura latino-americana ainda circula no mundo. Há uma diferença entre um livro ser traduzido para o inglês e ser de fato lido, estudado e pinçado pelos formadores de opinião que decidem essas listas. Cem Anos de Solidão e Pedro Páramo chegaram ao centro porque se tornaram fenômenos incontornáveis. A maior parte da grande literatura daqui nunca atravessou esse limiar, talvez por falta de circulação e de crítica que a leve a sério onde as listas são feitas.
É exatamente aí que a virada da Pinard passa a fazer sentido. A editora que um dia publicou o romance idolatrado pelo The Guardian decidiu que sua missão estava em outro lugar. A lista do jornal britânico confirma que estamos no caminho certo. E é por isso que estamos celebrando. Não porque publicamos um livro que chegou ao pódio, mas porque, enquanto faltarem livros latino-americanos nessas listas, haverá um trabalho importante a ser feito.

Bolívia sob cerco. A crise política boliviana se agravou neste sábado após confrontos entre a polícia de choque e manifestantes que bloqueiam estradas há três semanas. Agricultores, mineiros, professores e transportadores exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira, além de medidas contra a crise econômica, melhorias salariais e combustível de melhor qualidade. Leia a matéria completa aqui.
Na mira de Washington. Os Estados Unidos elevaram a tensão com Havana ao indiciar o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, por assassinato. A medida ocorre em meio à pior crise energética da ilha em décadas e alimenta especulações sobre uma ofensiva mais dura do governo de Donald Trump contra o regime comunista cubano. O que de fato pode acontecer agora? Confira a análise aqui.
Ponto C. Uma estrutura inflável de três metros em formato de clitóris surgiu nas ruas de Providencia, no Chile, como parte de uma ação da coletiva chilena “Las Clito”, formada por ginecólogas e sexólogas que combatem o analfabetismo sexual. A intervenção marcou o Dia Internacional do Clitóris, celebrado em 22 de maio, e buscou estimular debates sobre anatomia feminina e direitos reprodutivos. Veja mais aqui.
Te vejo no Pacaembu. A Pinardestará presente n’A Feira do Livro, que rola de 30 de maio a 7 de junho, na Praça Charles Miller, em São Paulo. Além dos livrinhos, Andrés Montero e Alejandro Droznes, dois de nossos autores, estarão na feira para participar de mesas de debate e assinar algumas de suas obras. Passe pela Tenda das Ilhas 1 e venha bater um papo com os nossos livreiros.

🌎 Buenos Aires, Brasil. No interior do Nordeste brasileiro, uma cidade de apenas 13 mil habitantes carrega um nome improvável: Buenos Aires. Entre plantações de cana e maracatu, o município cultiva uma paixão aos costumes e à cultura argentina, com direito à torcedores de Boca e River, além de fanáticos pela seleção albiceleste. Veja essa história completa aqui.
⚽ Todo dia um 7 a 1. A Copa tá quase aí e, para quem lê, é quase inevitável não lembrar de uma história que rolou lá em 2014, com a então recém-inaugurada Lote 42. A editora decidiu dar 10% de desconto nos livros a cada gol sofrido pela seleção brasileira. Tudo parecia bem até que veio a semifinal com a Alemanha, cujo placar você conhece bem. Ouça essa história completa aqui.
🧵 Entreguem a taça. E por falar em Copa, a nova terceira camisa da seleção mexicana traz bordados feitos manualmente por mais de 150 artesãs indígenas da comunidade de Naupan, no estado de Puebla, que usou técnicas tradicionais de bordado para criar um dos mais belos mantos já vistos. De acordo com a Footy Headlines, o projeto levou cerca de 15 meses para ser concluído. Veja o resultado aqui.

A nova onda de protestos na Bolívia recolocou em evidência um dos grupos mais simbólicos e temidos da sociopolítica boliviana: os Ponchos Rojos. Entre bloqueios de estradas, cercos no altiplano e enfrentamentos com o governo, a organização voltou a ocupar um espaço central em um país acostumado a conviver com ciclos permanentes de rebelião popular.
Os Ponchos Rojos surgiram como expressão comunitária e política do altiplano paceño, especialmente na região de Achacachi, e se consolidaram como um símbolo da autonomia indígena diante do Estado boliviano. Homens e mulheres aimarás que compõem o grupo se vestem, justamente, com ponchos vermelhos e carregam chicotes, impondo presença e causando temor em quem os encara.
Durante os anos de ascensão de Evo Morales, o grupo atuou muitas vezes como base de sustentação popular do governo indígena-campesino. Agora, porém, reaparece em um contexto diferente: o enfraquecimento do Movimiento al Socialismo e o desgaste da Central Obrera Boliviana abriram espaço para que organizações territoriais retomassem protagonismo próprio.
A atual crise econômica e política também acelerou esse processo. Sem uma liderança hegemônica capaz de organizar o campo popular, grupos locais voltaram a ocupar o centro da cena política boliviana com alta capacidade de mobilização devido ao forte enraizamento identitário e histórico com a memória indígena, a resistência comunitária e a ação direta.
Na prática, seus métodos lembram os bloqueios realizados por movimentos piqueteiros em outros países latino-americanos. Mas, na Bolívia, esses cercos carregam outro peso histórico. No altiplano, fechar estradas é uma demonstração de força territorial e de sobrevivência política em um país onde as grandes transformações quase sempre aconteceram pelas mãos da convulsão social.
Esta edição foi finalizada em uma segunda-feira de protestos no Internado Judicial de Barinas, na Venezuela.
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