
Nesta edição, dois novos carimbos no nosso passaporte literário latino-americano.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, quatro escritores que se foram em maio, filmes imperdíveis do gótico latino, Shakira absolvida e mais.
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Há uma triste e estranha coincidência no calendário literário da América Latina. Maio é o mês em que o continente perdeu alguns de nossos maiores escritores: Alcides Arguedas, Carlos Fuentes, Mario Benedetti e Jorge Icaza. Abaixo, confira algumas das razões para você lamentar e ler as obras desses gigantes que atravessaram fronteiras, línguas e gerações.
Alcides Arguedas foi um dos primeiros intelectuais latino-americanos a olhar para o próprio país sem complacência ou “tapinhas nas costas”. O ensaio Pueblo enfermo, publicado em 1909, causou escândalo na Bolívia pela dura análise sobre os males sociais e políticos do país. Uma década mais tarde, em 1919, sai sua obra-prima: Raça de bronze, romance que narra a exploração brutal dos indígenas aimarás pelos latifundiários e é considerado até hoje o primeiro grande romance indigenista da literatura latino-americana. Arguedas morreu em maio de 1946, deixando uma obra que o século XX levou tempo demais para reconhecer plenamente.
Diplomata, polemista e integrante do chamado “Boom latino-americano”, Carlos Fuentes era um homem das letras que transitava com a mesma desenvoltura entre calhamaços e breves colunas de jornal. Mas foi com A morte de Artemio Cruz, de 1962, que alcançou a grandeza eterna: o livro reconstrói a vida de um revolucionário mexicano corrompido pelo poder, em fragmentos temporais que embaralharam e reinventaram a narrativa hispano-americana. Fuentes morreu em 15 de maio de 2012, em Madri, aos 83 anos, mas até hoje é uma das vozes mexicanas mais reconhecidas internacionalmente — e olha que se tem algo que não falta no México é boa literatura.
Mario Benedetti não vive apenas na memória dos leitores, mas também em murais, canções e tatuagens. Poeta do cotidiano e da resistência, ele escreveu sobre o amor, o exílio e a ditadura com uma clareza que chega a ser irritante de tão boa. Preso pelo regime militar uruguaio, exilou-se por mais de uma década e transformou essa experiência em obra. Além do clássico A trégua, vale conhecer O aniversário de Juan Ángel, de 1971, um romance escrito inteiramente em verso, narrado ao longo de um único dia, que entrelaça a história pessoal de um militante uruguaio com a turbulência política do continente. Benedetti morreu em 17 de maio de 2009, em Montevidéu, aos 88 anos.
Jorge Icaza começou a carreira artística como ator e dramaturgo, mas foi com a obra Huasipungo, de 1934, que entrou para a história. O romance narra o despejo violento de comunidades indígenas de suas terras pelos proprietários rurais — e o fez com uma brutalidade narrativa que chocou leitores e críticos. Traduzido para dezenas de idiomas, Huasipungo colocou o Equador no mapa da literatura mundial e Icaza no centro do indigenismo hispano-americano. Ele morreu em 26 de maio de 1978, em Quito, deixando uma obra que permanece essencial para entender as feridas coloniais que o continente ainda não conseguiu cicatrizar.

Justiça autóctone. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil protocolou no Supremo Tribunal Federal um habeas corpus coletivo pedindo a transferência de indígenas presos em regime fechado para a semiliberdade ou prisão domiciliar, além da revogação de prisões preventivas. A ação reacende o debate sobre como o sistema prisional brasileiro lida com povos originários, especialmente diante de diferenças culturais, territoriais e jurídicas historicamente ignoradas. Leia mais aqui.
Waka, waka. A Shakira foi absolvida pela Suprema Corte da Espanha das acusações de fraude fiscal e deve receber de volta mais de 60 milhões de euros pagos em multas e juros. Depois de anos de embate com o fisco espanhol, a decisão parece confirmar uma antiga suspeita que nós, aqui na América Latina, tínhamos: hips don’t lie. Leia mais aqui.
Editoras catalogadas. O Sindicato Nacional dos Editores de Livros vai lançar, em parceria com a Nielsen BookData, o Guia de Editoras – Mapa do Setor Editorial Brasileiro, estudo inédito que reúne dados de 1.047 editoras em atividade no país. O levantamento, que será apresentado em junho no Rio de Janeiro, promete dimensionar pela primeira vez a força econômica do mercado editorial brasileiro. Leia mais aqui.
Livros para ouvir. A Editora Pinard agora também chegou à Audible, com alguns títulos disponíveis em audiobook na plataforma. A novidade acompanha o crescimento do público que quer a literatura mais presente no dia a dia: seja no trânsito, na cozinha, na academia ou naquele momento em que, olha… só uma boa história na causa. Entre para a Audible aqui.

🍫 De lamber os dedos. Enquanto tá todo mundo atrás das figurinhas da copa, o maioral Rafa Grossliani apresentou, no Instagram, o único álbum que realmente importa: o álbum de embalagens de alfajores. O garoto reuniu Capitán del Espacio, Rasta, Jorgito e outras lendas no vídeo, que já passou dos 364 mil likes e promete abrir o apetite de qualquer um. Veja aqui.
🕯️ Gótico latino. O horror latino-americano também mora em casarões coloniais, traumas familiares e feridas históricas. Essa lista reúne clássicos como Pura Sangre, Alucarda, la hija de las tinieblas e Veneno para as fadas, mostrando como o cinema gótico ganhou contornos próprios na América Latina. Já viu esses? Qual filme ficou faltando?
🏺 Jogo de cintura. Você já ouviu falar no Ulama de Cadera? Com mais de 3.500 anos de história, esse esporte ancestral mesoamericano sobrevive principalmente em Sinaloa, no México. A partida acontece com uma bola de borracha de cerca de 3 quilos, rebatida apenas com o quadril. O perfil @professor.pereira apresenta a tradição e lembra que os jogos indígenas da região vão muito além do famoso pok ta pok maia. Veja aqui.

Em La Paz, há uma imagem onipresente: está nas ruas, nos mercados, nas festas populares e até nas arenas de luta livre: mulheres de saias volumosas, tranças longas, mantas coloridas sobre os ombros e chapéus-coco cuidadosamente posicionados sobre a cabeça. São as cholas paceñas.
Hoje, elas representam um dos símbolos mais fortes da identidade boliviana, mas durante muito tempo sua aparência foi alvo de discriminação. A pollera (a saia rodada que virou marca registrada das cholas) foi originalmente imposta às mulheres indígenas pelas autoridades coloniais espanholas. Com o passar dos séculos, aquilo que nasceu como imposição acabou transformado em afirmação cultural e também política.
A figura da chola está profundamente ligada às populações aimarás e quéchuas dos Andes bolivianos. Durante décadas, mulheres vestidas com trajes tradicionais foram impedidas de entrar em determinados espaços públicos, restaurantes e até meios de transporte. Em muitos contextos urbanos, a vestimenta indígena era associada à pobreza e à exclusão social.
Nas últimas décadas, no entanto, as cholas passaram a ocupar espaços de poder econômico, político e cultural. Tornaram-se empresárias, apresentadoras de TV, parlamentares e ícones da moda local. Em La Paz, há inclusive desfiles dedicados exclusivamente à elegância das polleras e ao refinamento dos tecidos, jóias e chapéus usados pelas participantes.
Alguns desses elementos carregam significados próprios. O chapéu-coco, por exemplo, teria chegado à Bolívia no início do século XX, após uma encomenda europeia feita no tamanho errado para trabalhadores ferroviários britânicos. Sem utilidade para os homens, os chapéus acabaram vendidos a mulheres andinas — e foram incorporados à vestimenta tradicional.
Outro fenômeno ajudou a projetar ainda mais essa imagem para o mundo: as cholitas luchadoras. Misturando cultura popular e performance, mulheres indígenas passaram a participar de combates de luta livre usando polleras e tranças, transformando um espetáculo muitas vezes caricatural em símbolo de resistência e orgulho. Uma identidade que sobreviveu à colonização, ao preconceito e às tentativas de apagamento — e que hoje ocupa as ruas de La Paz não como lembrança do passado, mas como presença viva da Bolívia contemporânea.
Esta edição foi finalizada na manhã de segunda-feira, antes de a gente saber se o bilhete do Neymar fez efeito ou não.
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