Nicarágua e Peru: os destinos de junho

Nicarágua e Peru: os destinos de junho

Nesta edição, dois novos carimbos no nosso passaporte literário latino-americano.

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Os dois lançamentos da Pinard no mês de junho. Foto: Divulgação.

Eu sei que você tá pensando em quermesse, mas a Pinard tem uma novidade tão legal quanto receber correio elegante: em junho, dois romances de países inéditos em nosso catálogo passam a integrar a Coleção Prosa Latino-americana. Diretamente da Nicarágua, chega uma investigação criminal inspirada em fatos reais que mistura mistério, política e crítica social. E do Peru vem um romance que abalou os costumes de sua época ao retratar sem concessões os jogos de poder, dinheiro e prestígio da alta sociedade. Vem ver os lançamentos do mês:

Espreme que sai veneno

Em Castigo Divino, Sergio Ramírez parte de um episódio real ocorrido na cidade de León, na Nicarágua dos anos 1930. O caso, conhecido à época como “o processo dos envenenados”, mobilizou jornais, autoridades e a imaginação popular durante anos. No centro da história está Oliverio Castañeda, figura sedutora, refinada e profundamente ambígua, acusado de envenenar pessoas próximas a ele em circunstâncias cada vez mais suspeitas. O que poderia ser apenas um romance policial logo se expande para algo muito maior: um retrato corrosivo das elites centro-americanas, do funcionamento arbitrário da justiça e da facilidade com que poder, dinheiro e influência moldam a verdade pública.

Ramírez faz isso com uma habilidade impressionante para misturar registros: um pouco de crônica jornalística, um pouco de sátira política, uma dose generosa de romance de costumes e um caminhão de folhetim judicial. O resultado é um livro que transforma o tribunal em palco e o julgamento em espetáculo público. Boatos circulam com a mesma velocidade dos fatos, a cidade inteira toma partido e, aos poucos, o próprio leitor começa a desconfiar que a verdade talvez seja menos importante do que a narrativa construída ao redor dela. Não por acaso, a história ganhou até adaptação para a televisão nos anos 1990. Esse é um livro para quem gosta de romances policiais que desafiam as convenções do gênero – ou para quem leu As mortas e procura outra narrativa construída a partir de um caso real, mas com uma ambição documental ainda mais impressionante –, este livro é um prato cheio.

Não por acaso, Sergio Ramírez é também jornalista, ex-vice-presidente da Nicarágua e uma das figuras intelectuais mais importantes da América Central. Em 1988, recebeu o Prêmio Dashiell Hammett, considerado o mais importante reconhecimento da literatura policial e noir em língua espanhola. Sua trajetória política atravessa diretamente sua obra: Ramírez participou da Revolução Sandinista, integrou o governo revolucionário nos anos 1980 e, décadas depois, tornou-se um dos principais críticos do autoritarismo de Daniel Ortega, entrando inclusive em exílio.

Essa tensão constante entre poder, encenação pública e fragilidade institucional aparece de maneira muito clara em Castigo Divino, romance frequentemente apontado como uma de suas obras-primas – Carlos Fuentes o chamou “o grande romance da América Central”. A edição brasileira chega com tradução de Bruno Cobalchini Mattos e mais de 500 páginas que revelam não apenas um grande romance policial latino-americano, mas também uma sofisticada anatomia social da Nicarágua.

Blanca Sol

Blanca Sol, de Mercedes Cabello de Carbonera, nos leva ao Peru do final do século XIX – mais especificamente a uma Lima obcecada por aparência, prestígio e ascensão social. Publicado originalmente em 1888, o romance acompanha Blanca, jovem criada para entender o casamento como estratégia econômica e o luxo como medida de valor humano. Ambiciosa, inteligente e profundamente moldada pelas expectativas da elite limeña, ela transforma a própria vida numa tentativa permanente de conquistar status e reconhecimento.

O resultado é um dos retratos mais ferozes da burguesia latino-americana produzidos naquele século. Mercedes Cabello desmonta, com ironia e crueldade raras para a época, o moralismo das classes mais abastadas do Peru, a superficialidade das relações sociais e a estrutura patriarcal que condicionava as mulheres a sobreviverem através do casamento e das aparências. É realmente um registro muito à frente do seu tempo, porque, na literatura latino-americana dos mil e oitocentos, personagens femininas costumavam ser enquadradas entre a pureza idealizada e a punição moral exemplar. Mercedes Cabello rompe violentamente com essa lógica e cria uma protagonista contraditória, calculista, sedutora, vaidosa e extremamente consciente das regras do mundo em que vive. Em vez de suavizar sua personagem para torná-la aceitável, a autora a transforma em espelho direto de uma sociedade inteira movida por dinheiro e prestígio.

Apesar de pouco debatida no Brasil, Mercedes Cabello de Carbonera nunca foi exatamente o tipo de escritora que passava despercebida. Influenciada pelo positivismo e pelas correntes realistas e naturalistas europeias, defendia a educação feminina, questionava os papéis reservados às mulheres e criticava abertamente o conservadorismo da sociedade peruana. Não surpreende que suas ideias e seus romances tenham provocado escândalo nos círculos literários e sociais de Lima – no posfácio das edições seguintes de Blanca Sol, ela precisou se defender de um sem-número de críticas e injúrias. Durante décadas, sua obra permaneceu à margem do cânone, mas o tempo acabou fazendo justiça: Mercedes é hoje reconhecida como uma das vozes mais originais e pioneiras da literatura latino-americana escrita por mulheres.

A edição da Pinard, com tradução e posfácio de Roberta Vilas Boas, traz ao leitor brasileiro um romance fundamental para entender não apenas a literatura peruana do século XIX, mas também as origens de discussões que seguem absolutamente contemporâneas: gênero, poder, aparência social e decadência moral.

Então em junho ficamos assim: Castigo divino transforma um julgamento em espetáculo público, e Blanca Sol categoriza a vida social em uma peça de costumes – ou em uma novela das 21h. Mas o que realmente aproxima as obras é o fato de que ambas entendem que as elites latino-americanas sempre dependeram mais da encenação do que da verdade em si. Em meio a tribunais, salões aristocráticos, boatos, casamentos estratégicos e jogos de influência, Sergio Ramírez e Mercedes Cabello de Carbonera constroem romances que capturam muito bem esse jeito de ser burguês.

O que diz quem já leu

“Uma mistura de reportagem minuciosa e recriações ficcionais do julgamento de um cafajeste e envenenador em série na Nicarágua pré-guerra, nos dias que antecederam a primeira ditadura Somoza. Ao mesmo tempo um envolvente mistério de crime real, uma sátira política e uma comédia farsesca, Castigo Divino é uma obra singular de um talento genuíno. Ramírez foi uma das minhas descobertas favoritas deste ano.”
Daniel Polansky, no Goodreads

“Sergio Ramírez estende a técnica flaubertiana a uma sociedade inteira, verdadeiro microcosmo da América Central, pois, embora situada em León, a ação reverbera na Costa Rica e na Guatemala. De todo modo, estamos, mais do que em qualquer outro romance que eu tenha lido, na América Central, e estamos ali dentro de um abraço tão úmido e sufocante quanto o próprio clima e os atributos provincianos que o acompanham: a pieguice enjoativa, a mais hipócrita beatazice, a mais impune violência.”
Carlos Fuentes, no posfácio da obra

É um romance extraordinário que deixa o leitor repleto de dúvidas e perguntas ao final da leitura. Impressiona por ser uma crônica judicial tão detalhada, repleta de idas e vindas no tempo, como um quebra-cabeça cujas peças precisamos encaixar — ou permitir que outros encaixem por nós — e simplesmente nos deixar levar pelo prazer da leitura.”
Jesús de Matías Batalla, em seu blog

“Mercedes Cabello viveu num tempo em que a literatura latino-americana estava passando por transformações e teve um papel importante nessas mudanças, dando destaque não apenas a um novo estilo de escrita, mas também às falhas da sociedade e às necessidades de mudanças, sendo um importante nome do pensamento crítico e feminista não apenas no Peru como em toda a América Latina.”
Roberta Vilas Boas, no posfácio da obra

Blanca Sol é uma obra-prima da literatura peruana que merece ser lida por qualquer amante dos livros. Com sua exploração de temas atemporais como o amor, a liberdade e a justiça social, além de um estilo literário envolvente e evocativo, este romance continua relevante e comovente mais de um século após sua publicação original.”
Marcos Sangrador, no site Algunos Libros Buenos

“Mercedes Cabello nos alerta muito cedo para as interações entre a esfera privada e o poder político, bem como para o uso dessas relações em benefício de interesses pessoais e de prestígios circunstanciais. Ela nos lembra que a política também faz parte de uma arte de seduzir por meio das palavras e, portanto, da venda de fantasmas coletivos que respondem mais aos interesses de grupos restritos do que aos da maioria, excluindo-a e instrumentalizando as mulheres.”
Mónica Cárdenas Moreno, na tese Blanca Sol o el arte de la seducción

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