
Nesta edição, dois novos carimbos no nosso passaporte literário latino-americano.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, um romance argentino inesgotável, cachorro caramelo vira mexicano, uma homenagem a Luis Puenzo e mais.
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“Eternamente / é ter na mente / éter na mente / e, ternamente.” O verso de Walter Franco, como tantos outros que ele escreveu, soa como um mantra, um estado de espírito, uma tentativa de suspender o tempo dentro da própria linguagem, de fazer a palavra girar sobre si mesma até abrir uma fresta onde o sentido deixa de avançar e passa a permanecer. É um bom ponto de partida para entrar no livro Museu do Romance da Eterna, porque seu autor, o argentino Macedonio Fernández, faz com o romance algo parecido: ele não quer simplesmente contar uma história, quer criar um espaço onde o tempo da narrativa perde sua obrigação de seguir cronologicamente – na verdade, perde a obrigação mesmo de seguir adiante.
Esse impulso de criação não surge no vazio. Macedonio Fernández escreve num momento em que a arte já dava sinais de cansaço de suas próprias formas: enquanto o Cubismo desmontava a perspectiva e reorganizava o mundo em fragmentos, a literatura também buscava romper seus limites. Macedonio segue nessa direção, mas com uma ambição mais radical: colocar em xeque a ideia de romance. Para isso, imagina uma obra sustentada por uma espécie de doutrina artística, em que escrever e pensar deixam de ser etapas separadas e passam a acontecer como um único gesto, em tempo real. Esse gesto é atravessado por um pano de fundo filosófico que vai de Arthur Schopenhauer a William James, especialmente na noção de que a realidade pode ser apenas uma construção instável e a vontade, uma força incessante e nunca plenamente satisfeita.
É por isso que Museu do Romance da Eterna começa antes de começar – ou talvez nunca comece de fato. O livro se abre em uma proliferação de prólogos que funcionam como laboratório, ensaio e provocação. O autor explica o que pretende, desfaz o que acabou de explicar, ironiza o próprio projeto e, ao mesmo tempo, envolve o leitor num jogo em que ele deixa de ser espectador para se tornar parte da engrenagem. Não se trata de preparar o terreno para a narrativa, mas de mostrar que o terreno está – e sempre estará – em construção. O romance, aqui, é uma eterna errância.
Dentro desse processo, Macedonio toma uma decisão central: recusar o realismo. Em vez de reproduzir a vida, ele aposta no que chama, em termos próximos, de um “fantasismo”, uma lógica do impossível em que personagens existem de forma instável, acontecimentos não obedecem a qualquer verossimilhança e a própria ideia de identidade é constantemente deslocada. Essa recusa não é gratuita. Para ele, só o impossível permite escapar dos automatismos da narrativa tradicional e abrir espaço para algo realmente novo. O romance deixa de ser espelho e passa a ser invenção pura – uma invenção que, paradoxalmente, tenta dar conta daquilo que há de mais essencial na experiência humana.
No centro dessa tentativa está uma obsessão íntima e persistente, que é a negação da morte. Desde a perda prematura de sua esposa, Macedonio escreve como quem tenta corrigir o irreparável, como quem insiste que a literatura pode manter o presente em suspensão. A “Eterna” do título surge desse gesto. Ela não é apenas uma personagem, mas uma entidade que condensa a possibilidade de fixar o tempo, de impedir que a perda se complete, de transformar o romance num espaço onde a ausência não se consolida. Isso ajuda a entender por que o livro avança de forma tão errática: avançar, no sentido clássico, seria aceitar o fluxo do tempo e, com ele, a finitude. O autor prefere circular, interromper, recomeçar, como se cada desvio fosse uma forma de resistência.
O resultado é um “lar da não existência”, um espaço em que o eu se desfaz, os personagens vivem apenas parcialmente e o leitor é constantemente deslocado. Ler deixa de ser seguir uma trama e passa a ser experimentar uma instabilidade, quase como entrar num estado mental em que as certezas narrativas não se sustentam. Ainda assim, o livro não se fecha numa gravidade excessiva. Há humor, e um humor decisivo, que impede qualquer solenidade. Macedonio ri do papel do escritor, da expectativa do leitor e da própria ideia de obra, como quando se dirige ao “leitor salteado”, antecipando uma leitura fragmentada e transformando essa dispersão em parte da forma.
O que Museu do Romance da Eterna propõe não é apenas uma nova maneira de escrever, mas uma nova maneira de ler. Nesse sentido, ele faz eco àquilo que Umberto Eco chamou de “obra aberta”: uma obra que não se esgota em si, que depende do leitor para se completar, que se mantém em permanente estado de construção. Como no verso de Walter Franco, tudo parece acontecer ao mesmo tempo: o tempo que não passa, a mente que insiste, a linguagem que se dobra. E talvez seja justamente aí que reside sua força mais duradoura: na recusa em se deixar fixar, na tentativa contínua de fazer da literatura um lugar onde algo – ainda que por instantes e algumas centenas de páginas – possa ser eterno.
Com informações de Perfil e Philos.

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Caramelo mexicano. O tradicional vira-lata de pelagem amarela, que por aqui responde pela alcunha de caramelo, foi reconhecido como raça oficial no México, onde é chamado de “perrito amarillo”. A decisão partiu da Procuradoria de Proteção Ambiental do Estado do México, que incluiu o animal entre as raças nacionais como forma de incentivar a adoção e reduzir o preconceito contra cães sem pedigree. Veja a notícia aqui.
Destaque latino. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe indicam crescimento moderado na região nos próximos anos. A exceção é a Guiana, que deve avançar cerca de 24% em 2026, puxada pelo petróleo. O salto contrasta com os vizinhos e levanta dúvidas sobre distribuição de renda e sustentabilidade. A questão é se o crescimento acelerado vai se traduzir em desenvolvimento estrutural. Entenda mais aqui.
Livros no lixo. A prefeitura de Osasco descartou centenas de livros da Biblioteca Pública Monteiro Lobato sob a alegação de contaminação por fungos, mas a decisão gerou forte reação de moradores, professores e escritores após imagens mostrarem exemplares em caçambas. Fechado desde a pandemia de COVID-19, o espaço segue sem acesso ao público, e o episódio reacende críticas sobre abandono, falta de transparência e descaso com a memória cultural da cidade. Leia mais aqui.

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Na noite de 24 de março de 1986, ao subir ao palco do Oscar para receber o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro por A história oficial – o primeiro da história do cinema argentino –, o diretor Luis Puenzo não falou apenas de cinema. Lembrou que, naquela mesma data, dez anos antes, a Argentina mergulhava em sua última ditadura. Transformou a consagração em um gesto de memória.
Puenzo, que morreu na semana passada, aos 80 anos, construiu uma obra marcada por essa recusa da neutralidade. Foi um diretor que tomou partido e entendeu o cinema como extensão das urgências do seu tempo. Em seu filme mais célebre, o drama de uma mãe em dúvida sobre a origem da filha adotiva expunha, na verdade, as feridas abertas de um país inteiro.
Sua relação com a literatura seguiu a mesma lógica: adaptar era reinterpretar. Em Gringo velho, a partir de Carlos Fuentes, e em A peste, inspirado em Albert Camus, levou para a tela histórias que dialogavam com política, identidade e crise social.
Além dos filmes, atuou nos bastidores para fortalecer o audiovisual argentino, participando da criação da Lei de Cinema e da estrutura institucional do setor, como o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Era a mesma lógica de sempre: o cinema como prática coletiva.
Fica uma obra que insiste em incomodar. Porque, para Puenzo, filmar nunca foi um exercício de estilo, mas de responsabilidade – uma forma de fazer da memória não apenas tema, mas posição.
Esta edição foi finalizada com empate no segundo turno no Peru entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez.
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