Entre ritos e raízes

Entre ritos e raízes

Nesta edição, a ficha completa dos dois livros que a Pinard lança em abril.

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Os lançamentos da Pinard em abril. Foto: Divulgação.

É começo de mês, então esta newsletter abre espaço para os lançamentos da Pinard. O primeiro deles é Cerimônias do verão, um romance que mergulha nas camadas mais íntimas da experiência e quebra a noção de amor romântico. O outro é simplesmente o relançamento brasileiro de Facundo: ou civilização e barbárie, um clássico incontornável que inaugura a coleção Pensamento Latino-Americano, dedicada a obras mais densas, que investigam as raízes e os conflitos que moldaram o nosso continente.

Clima de mudança

Premiado em 1966 pelo Casa de las Américas por “sua alta qualidade literária, o rigor de construção e a unidade difícil que sustenta seu ritmo”, Cerimônias do verão é um romance de formação fragmentado, feito de deslocamentos, leituras e reinvenções. As cidades se encadeiam como pérolas de um colar: do interior argentino à grande Buenos Aires, e depois Roma, Paris e outros espaços que são tanto geográficos quanto simbólicos. Cada mudança carrega uma perda, mas também o desejo de reinventar-se em outro lugar.

E é pela leitura que esse mundo novo se organiza. Entre coleções populares, romances clássicos e referências do cinema, a protagonista aprende a existir mediada pela ficção, “como uma espécie de Emma Bovary do século XX”. Vive, sente e interpreta o mundo através das histórias que consome. A literatura, aqui, é ao mesmo tempo abrigo e molde. Com o tempo, esse repertório também se transforma. O que antes era descoberta torna-se insuficiente; o que era conquista simbólica passa a soar como ingenuidade.

Sempre com o verão ao fundo, Traba conduz um mergulho nos abismos da subjetividade feminina. A narrativa avança em sequências que, embora independentes, nunca são autônomas: compõem, juntas, a unidade de um percurso marcado por deslocamento e crise. Um romance de formação, sim, mas também de deformação: da perda de referências, do colapso de mitos e da difícil tarefa de construir uma identidade que não seja apenas reflexo da arte.

Marta Traba (Buenos Aires, 1811 – Mejorada del Campo, 1983) formou-se em Filosofia e Letras e aprofundou seus estudos em História da Arte em Roma e Paris antes de se fixar na Colômbia. Ali, tornou-se uma figura central da cena cultural: lecionou, escreveu, levou a discussão artística para a televisão e participou da criação do Museu de Arte Moderna de Bogotá. Entre crítica, ensaio e ficção, construiu uma obra extensa e decisiva para pensar a arte latino-americana. Sua trajetória foi interrompida em 1983, no acidente do voo 11 da Avianca, que também vitimou Ángel Rama, Manuel Scorza e Jorge Ibargüengoitia.

Forças inconciliáveis

Publicado em 1845, Facundo ou civilização e barbárie, do argentino Domingo Faustino Sarmiento, atravessa o tempo como uma tentativa radical de compreender a formação da América Latina. Ao tomar a figura do caudilho Juan Facundo Quiroga como eixo, o autor constrói algo que vai muito além de uma biografia: um ensaio sobre forças em disputa no continente: civilização e barbárie, campo e cidade, ordem e violência.

Mas Facundo não é apenas um jogo de dicotomias. É também tomada de posição. Entre o ensaio, a narrativa histórica e o panfleto político, Sarmiento organiza o mundo que descreve ao mesmo tempo em que o disputa. Ao associar o universo urbano, letrado e europeu a um ideal de progresso, e o mundo rural dos caudilhos a formas de poder personalistas, o livro não apenas descreve uma tensão: expõe as bases de um padrão que atravessa a história latino-americana — a recorrência de lideranças fortes, a fragilidade institucional, a permanência do autoritarismo como força latente.

Como observa Ricardo Piglia no prólogo da edição da Pinard, “a oposição entre civilização e barbárie é o nome ideológico dessa cisão romanesca”. Ao encontrar na forma híbrida do livro, entre literatura e intervenção, um modo de representar “um mundo cindido”, Sarmiento transforma essa dualidade em princípio de construção, e não apenas em tema.

De Jorge Luis Borges a César Aira, passando por Juan José Saer e Andrés Rivera, diferentes autores voltaram a essas figuras (gaúchos, caudilhos, déspotas, intelectuais) como se Facundo seguisse sendo reescrito. Mais do que um clássico, o livro permanece como um campo de forças: um texto que não se encerra, porque os conflitos que o atravessam tampouco se resolvem.

Domingo Faustino Sarmiento (San Juan, 1811 – Assunção, 1888) foi escritor, jornalista, educador e uma das figuras centrais da vida política argentina no século XIX, chegando à presidência do país entre 1868 e 1874. Defensor da educação pública e da modernização institucional, viveu longos períodos de exílio, durante os quais escreveu parte fundamental de sua obra.

Com informações de O prazer da leitura em Facundo e Las ciudades de Marta Traba.

Filmes que conversam com os livros

Cena de Encontros e desencontros, que tem paralelos com o livro de Traba. Foto: Divulgação.

🎥 Educação, de Lone Scherfig
O aprendizado sentimental mediado por referências culturais, onde a vida parece imitar aquilo que se leu ou imaginou.

🎥 A Febre, de Maya Da-Rin
O deslocamento subjetivo e a sensação de não pertencimento em diferentes espaços.

🎥 Encontros e desencontros, de Sofia Coppola
O deslocamento em territórios estrangeiros e a experiência íntima de não pertencimento.

🎥 Zama, de Lucrecia Martel
O desencaixe entre indivíduo e território, atravessado por estruturas de poder e heranças coloniais.

🎥 Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha
A paisagem latino-americana como espaço de conflito, onde forças históricas e simbólicas se enfrentam.

🎥 A Patagônia rebelde, de Héctor Olivera
Os embates políticos e sociais que ajudam a pensar a formação e as tensões da América Latina.

O que diz quem já leu

Cristina Peri Rossi é uma das entusiastas de Cerimônias do Verão. Foto: Divulgação.

Sobre Cerimônias do Verão:

“Ninguém deveria deixar de ler Marta Traba, que tem uma capacidade privilegiada de narrar a dor e a perda a partir de um lugar de luz e possibilidade.”
Tes Nehuén, no blog Bestia Lectora

“Utilizando com maestria técnicas literárias inovadoras para sua época, a escritora argentina nos convida a mergulhar nesses quatro olhares irônicos e inteligentes, não desprovidos de poesia e de nostalgia.”
Félix Ángel Moreno Ruiz, nos Cuadernos del Sur do Diario Córdoba

As cerimônias do verão é uma busca pelos esconderijos da alma humana.”
Alfonso Calderón, nos Anales da Universidad de Chile

“Um romance de ritmo vertiginoso, em que as lembranças se entrelaçam na análise interior.”
Cristina Peri Rossi, no El Popular

Sobre Facundo:

“É o personagem mais memorável das nossas letras.”
Jorge Luís Borges, no prefácio da edição de 1974

“Sarmiento funda a literatura nacional porque encontra uma solução de compromisso que atende, ao mesmo tempo, à liberdade da escrita e às exigências da eficácia política.”
Ricardo Piglia, no prólogo de Facundo

“A gente não consegue deixar para trás essa violência grotesca da qual o Sarmiento fala de maneira muito vibrante no Facundo. E quando a gente retorna a uma obra escrita há quase dois séculos e tem essa sensação de atualidade, isso é de arrepiar.”
Sérgio Alcides no podcast 451 Mhz

Trechos matadores

“Não foi a mesma coisa porque no dia em que chegaram na Gare de Lyon, Paris estava especialmente sombria, amortalhada por esse cinza terrível como um sudário que cai de repente no outono e vela a cidade, a deixa opaca; Paris é uma festa, diz Hemingway, mas seria preciso esclarecer em que estação, porque no inverno é um funeral cheio de cafés onde velam cadáveres.”

“Essa insegurança da vida, que nas campanhas é habitual e permanente, imprime no caráter argentino, a meu ver, certa resignação estoica quanto à morte violenta, que faz dela um dos percalços inseparáveis da vida, uma maneira de morrer como qualquer outra, e talvez possa explicar em parte a indiferença com que se dá e se recebe a morte, sem deixar entre os que sobrevivem impressões profundas e duradouras.”

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