
Nesta edição, dois novos carimbos no nosso passaporte literário latino-americano.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, livros que passariam com louvor no vestibular, a carne de burro na Argentina, a noite dos livros em São Paulo e mais.
Leia maisSe você passou os olhos pelo noticiário nos últimos dias, provavelmente esbarrou no caso do estudante que zerou a redação da Fuvest. O candidato chegou a acionar a instituição para entender as razões da nota, e a resposta foi direta: o texto, descrito como hermético e rebuscado, não abordava o tema proposto (“O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”) e falhava em demonstrar compreensão e desenvolvimento da proposta.
A imprensa foi além e ouviu especialistas, que apontaram problemas complementares: ideias que até se encadeavam, mas nunca se conectavam de forma explícita ao tema; uma estrutura em que não se reconhecia claramente tese e argumentação; e um excesso de citações que mais encobria do que revelava a voz do autor. Em resumo: um texto que parecia sofisticado, mas não sabia exatamente o que estava dizendo.
Isso me fez pensar em alguns livros que apareceram ao longo da minha vida de leitor — alguns, confesso, daqueles que deixam a gente com cara de Nazaré Tedesco. Mas, em vez de entrar nesse terreno, dá pra virar o jogo e propor uma agenda mais produtiva (e caseira): e se alguns títulos da Pinard fossem colocados à prova dessa mesma banca examinadora? Não há muitas dúvidas de que seriam aprovados, é claro. Mas por quais razões exatamente? Quais seriam os predicados que cada um e cada uma receberia da banca?
Em Eu o Supremo, o que impressiona é o rigor com que o livro sustenta seu eixo central. Não há fuga do tema, nem dispersão, e isso é ainda mais notável num romance que se constrói justamente a partir da fragmentação, de vozes que se sobrepõem, de documentos que se contradizem. Ainda assim, tudo converge. Roa Bastos organiza essa matéria em torno de uma tensão única: a linguagem como exercício de poder, e o poder como exercício de linguagem. A pergunta sobre autoridade, legitimidade e discurso atravessa a narrativa inteira sem nunca perder força. É o tipo de obra que demonstra, na prática, o que a banca da Fuvest chama de pertinência: saber exatamente qual é o seu assunto e não se desviar dele, mesmo quando a forma parece convite.
Já em Filho de Ladrão, o destaque vai para a progressão. O romance acompanha a trajetória de Aniceto Hevia com uma clareza quase cirúrgica: cada episódio não apenas se conecta ao anterior, mas o aprofunda. Não há acúmulo gratuito de referências e nem desvios que quebram o ritmo quase cinematográfico da trama. É um texto que avança, e o faz com sentido. Nota máxima para o chileno.
Em Raça de Bronze, a boa articulação entre ideia e proposta narrativa é o grande destaque da obra. Aqui, não existe a separação entre repertório e argumento que os especialistas criticaram na redação zerada. A reflexão nasce da própria estrutura social retratada: das relações de poder, das violências. Nada está ali para ilustrar uma ideia externa, a ideia é que está entranhada na narrativa. É o tipo de livro em que pensar e narrar são praticamente a mesma coisa.
Por fim, Quão caro foi o açúcar? me parece um exemplo mais próximo de uma redação nota 10 no sentido clássico. Há uma tese clara desde o início, um recorte bem definido e uma condução rigorosa do raciocínio. Cada dado, cada episódio histórico, cada referência entra para sustentar um ponto. E, sobretudo, há uma voz própria: alguém que organiza, interpreta e toma posição baseando-se em fontes que operam a favor da narrativa.
Conhece algum livro que passaria com louvor pela banca da Fuvest? Deixe sua opinião nos comentários.

Carne cara. O aumento global do preço do boi gordo já começa a mudar hábitos de consumo na Argentina. Com o quilo da carne bovina ultrapassando os 10 mil pesos, parte dos consumidores tem buscado alternativas mais baratas, como a carne de burro. O tema ganhou repercussão após um jornal alinhado ao governo colocar uma repórter para provar a carne ao vivo — e a reação viralizar nas redes. O episódio expõe, no dia a dia, os efeitos da inflação em um país historicamente associado ao consumo de carne bovina. Acompanhe o caso aqui.
Anoitecer literário. A Dia Internacional do Livro será celebrada em grande estilo na São Paulo com a “Noite das Livrarias”. O evento reúne atividades gratuitas como lançamentos, leituras e shows em diferentes espaços da cidade, incentivando o público a redescobrir as livrarias como pontos vivos de cultura, e não só de compra. Confira a programação completa aqui.
Protesto no Coachella. A banda The Strokes encerrou seu show no Coachella 2026 com uma performance carregada de crítica política. Durante a música “Oblivious”, imagens projetadas citaram intervenções da CIA, incluindo a queda de Salvador Allende em 1973, além de referências a Patrice Lumumba e Jacobo Árbenz, ex-presidente da Guatemala. Veja a cena aqui.

📖 Borges indica livros. Inspirado pela frase de Jorge Luis Borges sobre o paraíso ser uma biblioteca, esse perfil destacou algumas das leituras favoritas do mestre argentino. Entre elas estão Los mitos griegos, de Robert Graves, A inteligência das flores, de Maurice Maeterlinck, e O livro das maravilhas, do próprio Marco Polo. Veja o restante da lista aqui.
🗯️ Mafalda vai virar série. A icônica personagem Mafalda, criada por Quino, ganhará uma adaptação em série com direção de Juan José Campanella. Prevista para chegar à Netflix em 2027, a produção promete atualizar o olhar crítico e bem-humorado da personagem para novos públicos. Se liga nas primeiras imagens divulgadas.
🎮 Dê o play na livraria. Já pensou em ter a sua própria livraria? Então o Tiny Bookshop é para você. No game, o jogador assume o papel de um livreiro itinerante, que precisa vender livros em cenários variados. Disponível para Steam, Nintendo Switch e PlayStation 5, o jogo tem alta aprovação do público e oferece uma experiência quase terapêutica para quem sonha viver cercado de livros – e ganhar a vida com eles. Leia mais aqui.
🎧 O que nossos jovens escutam? O reggaeton domina o que os jovens latino-americanos estão ouvindo, mas não de forma homogênea. Cada país imprime sua identidade: na Colômbia, mistura-se com gêneros locais; no México, ganha influência regional; na Argentina, convive com o rock; e no Chile, se adapta à lógica viral. Veja o levantamento completo no site Exclamacion.

A dança das tesouras é praticada há séculos por comunidades quéchuas do sul da cordilheira andina central do Peru, e mais recentemente também encontrou espaço em contextos urbanos. De origem pré-incaica, ela é mais do que uma apresentação: é um ritual que atravessa o tempo, geralmente realizado durante a estação seca e alinhado a momentos importantes do calendário agrícola.
Seu nome vem das duas lâminas de metal polido que os danzantes seguram na mão direita. Ao se chocarem, produzem um som seco e ritmado que se mistura ao violino e à harpa, formando a base da performance. A dança acontece em quadrilhas — cada uma composta por um danzante, um harpista e um violinista — que representam suas comunidades em um duelo coreográfico.
Frente a frente, os danzantes se desafiam em sequências cada vez mais exigentes de passos, saltos e acrobacias. Esse confronto, chamado atipanakuy, pode durar horas e testa não só a resistência física dos participantes, mas também a precisão dos músicos e a qualidade dos instrumentos. Os trajes acompanham essa intensidade: bordados, espelhos e franjas douradas criam um figurino que pode ultrapassar dez quilos.
Tradicionalmente, acredita-se que os danzantes possuem uma conexão com forças sobrenaturais, o que por muito tempo levou à ideia de que suas habilidades vinham de um pacto com o “outro lado”. Por isso, essas vestimentas não costumam entrar em igrejas, ainda que a dança tenha sido incorporada, com o tempo, a festividades católicas.
Apesar das tentativas históricas de repressão, a tradição sobreviveu. Os conhecimentos físicos e espirituais envolvidos na dança continuam sendo transmitidos oralmente, de mestre para aprendiz, mantendo viva uma prática que é, ao mesmo tempo, arte, rito e identidade.
Em 2010, a dança das tesouras foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. Mas talvez o reconhecimento mais preciso venha da leitura do escritor peruano José María Arguedas, que via nessa tradição a expressão de um ciclo entre vida, morte e regeneração profundamente ligado às montanhas e à cosmovisão andina.
Esta edição presta homenagens ao professor brasileiro Danilo Neves Pereira.
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